• Renata Cunha

Reconciliação


A vida se repete em um mais um.


Tempo frio. Ela se enrola na coberta e promete não pensar em mais nada além dele. Toda vez que se sentia perdida dava um jeito de se encontrar no outro. De olhos fechados era mais fácil. Poderia encontrá-lo num beco, numa cama de solteiro, no elevador, no café da manhã, em qualquer lugar melhor e mais perfeito para se estar, se viver, se ter um lar. Estar com ele desse jeito e não do jeito que tem que ser lhe trazia conforto.

Virou-se para o outro lado, sentiu um pouco mais de frio. Pegou o celular e viu que já eram três da manhã. Começou a chorar, pensar mal da vida, xingá-lo de idiota e tudo mais. Seu relacionamento já estava desgastado, já não havia mais promessas, mais doces afagos e cumplicidade. Ele já não a achava mais tão louca quanto ele, não fazia questão de se arrumar para ela e secar o banheiro após o banho. Para onde foi a paixão? Aquela Paixão? Que estrago o tempo fez com essa relação que parecia imutável ao tempo. A meta de sua vida era agora aceitar e suportar a dor do "felizes para sempre" e do "até que a morte nos separe". Foi tanto dinheiro gasto naquele piso novo da cozinha, no carro sem quilômetros rodados, no casamento... Não tinha como se separar como fazem outros casais, como faz qualquer outro. Sua vida foi planejada para ser diferente, não como agora. Filhos crescidos, pele marcada, pulmão escurecido. Suspirou. Ele não podia saber que ela voltou a fumar. Os diálogos que tinha consigo sobre o travesseiro perante a escuridão, eram os mais sinceros que tinha em sua vida, mais sincero do que quando falava da sujeira que tinha o quintal da vizinha. Podia entender por que não brigou com a sua chefe na hora do almoço, por que não saiu para a festa de mini saia, mesmo ele não querendo.

Levantou. Resolveu rezar o terço. Melhor se apegar em Deus, porque "Meu, Deus! Ave Maria! Não é fácil a vida pra Cristo!". Ao mesmo tempo ouviu passos largos pelo corredor. Se afastou da porta, enquanto o coração palpitava ouviu um toc-toc da porta. Que marido trapaceiro, saiu decidido do sofá, veio lhe trazer calor, amor, amar.

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© 2014 by Renata Cunha