• Renata Cunha

Não sei dizer “eu te amo”




Sinto muito, mas eu não sei dizer “eu te amo”, por mais que esteja amando.


Não sei, aliás, dizer qualquer coisa que seja sobre mim. As minhas palavras se prendem na garganta e não saem, arranham tanto que no máximo consigo balbuciar e sorrir para retribuir seu afeto. Falo bastante sobre tudo. Dou opiniões inteiras sobre o mundo, sobre tintos e taças, velas e vênus, mas quando é para falar sobre mim, meu Deus! Quando é para falar sobre mim, me calo. Juro que não sei o porquê. Talvez Freud seja capaz de adentrar nos meus sonhos um dia e me explicar de forma clara, o que eu não consigo entender e se oculta sutilmente em minha veia umbilical.


Compreenda: dizer “eu te amo” é teoria e só. Vai ver tenho apenas medo de carregar no peito a responsabilidade desta expressão e prefiro colocar o meu amor em prática, calada mesmo. Sem a presença de gritos e vozes, grandes holofotes, me sinto mais segura.

Eu sei. Com tanta facilidade abrimos a boca para falar mal do colega, do chefe, do vizinho, tão fácil sai da nossa boca um palavrão bem pronunciado, verdades duras, vozes destrutivas. Ao mesmo tempo, com tanta dificuldade dizemos ao outro quando está lindo ou linda, com dificuldade reconhecemos a gentileza do outro diante da vida, a fragilidade dos olhos entreabertos. É difícil ver no rasgo da roupa um sinal de que, tantos dias nos vestimos de amor, de flor, de abraços, nos protegemos do frio, das rugas da pele, dos seios ao relento, das saúvas por entre a grama que nos acolheu sábado de manhã na praça vazia.

É difícil ser leve, deixar para trás tudo aquilo o que nos pesa.


Ah medo, meu medo imbecil. Sim você está ai, mas apesar de existir, está aqui o meu amor maior, escapa de mim com uma vontade desesperada de fazer o melhor por ti.

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