• Renata Cunha

Último dia de inverno



Sabemos, todos um dia vamos morrer. Então, por que lutar pela vida?


Lutar pela vida é um exercício diário, implica em cuidar do corpo e da alma.

Contudo, nem sempre estamos dispostos a enfrentar os fatos e sair do conforto silencioso da não evolução.


Era o último dia de inverno. Doeu muito ouvi-la partir. Os gritos agudos das crianças gritando que o seu coração forte estava parando fez tremer meus olhos e aguar.

Ela esperava todos os dias eu chegar do trabalho apoiada na janela para me dar um beijinho leve de boa noite, "tá tudo bem, tia Zinha?" "tá tudo bem!".

Alguns dias antes do adeus, pôs-se com firmeza a querer ver o irmão porque estava sentindo no coração. Pediu bolo de abacaxi. Cochilou na cadeira: "tá tudo bem, Zinha?" "tá tudo bem!"


Deus recolheu uma alma cansada. Ela já havia tido uma vida e a tiraram mesmo antes de morrer. Havia um tempo em que sabia reconhecer as cores, fazia amizades, sempre tinha a companhia das pessoas que a amavam e que cuidavam dela com o carinho necessário, cheio de maturidade e puxões de orelha. A tratavam como mulher e não como criança, nada foi tão importante para seu crescimento. Quando nos tratamos de igual para igual, é inevitável que ambas as partes não se sintam humanas.


Depois foi tirada de surpresa das mãos que dela cuidavam e tudo começou a ficar diferente. Nem sempre lembravam que estava ali. A vida se resumia a pequenos passatempos como “fazer a unha” e assistir novela. Os dias foram se tornando longos demais, tristes. Tristeza tem hora que demora a passar e libera toxinas perigosas para o corpo. Tristeza estressa. Estresse entristece. É a alma o reflexo do corpo e o corpo reflexo da alma.


"eu quero salgadinho", "eu quero refrigerante". Sem ter mais o apoio que necessitava para manter-se saudável, seu corpo começou a emitir sinais de socorro. As visitas ao médico iam se tornando cada vez mais frequentes. Infecção de urina, perda do sono, pesadelos, obesidade. Mas, todo mundo estava ocupado demais. Sem tempo para dedicar-se ao que realmente importa: conhecer a si mesmo e aos outros.


Ainda lembro da última vez que a vi. Estava como não merecia. Segurei por meia hora sua mão gordinha e ainda quente. Apertou as minhas, sentiu que eu estava ali, e eu sentindo sua vida na minha, estive em grande euforia. Quis tocar de novo a textura da sua pele, fiz leves carícias em seus cabelos despenteados. Algo me dizia, seria a última vez.

Ela escondia em si um mistério genuíno, próprio, cheio de sutilezas e uma simplicidade rara. Foi assim até o último segundo, com fé e força suficiente para poder se despedir de todos que amava.


Por dias carreguei um silêncio cortante. Nunca mais a verei ali na porta, não ouvirei seu riso ou sua fúria com as novelas da televisão. Ela foi e nem terminou de ver o Cravo e a Rosa. Poxa! Foi de repente, para sempre. Só espero que tenha me perdoado por não ter cortado as suas unhas. Amei-a o quanto cabia no meu tempo, e sinto não a ter dedicado maiores momentos.


Perdemo-la para o universo, mas como também sou parte dele, uso a metáfora contida nos livros de Osho e percebo que a gotinha apenas caiu no oceano. Não sei como encontrá-la. Ela está bem, ela sempre soube que "está tudo bem" e um dia estarei junto a ela também.

Se existe diferença entre sonho e realidade, não sei. Mas dias depois de partir, ela ainda voltou nos meus sonhos, e aquela a qual todos consideravam tão criança, apenas me abraçou forte e me consolou como uma mulher sábia e madura. Foi assim que não mais chorei.


A flor tão bela adormeceu sem esperar que viesse mais uma primavera.

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